Termas do Carvalhal, uma dádiva da natureza (por Elisabete Jacinto)

1 Shares
1
0
0

A piloto portuguesa Elisabete Jacinto está a realizar uma rota pelas estâncias termais da rede Termas Centro. Neste texto, escrito na primeira pessoa, conta-nos o que viu e experimentou nas Termas do Carvalhal.

As Termas do Carvalhal atraem quem passa por perto. O edifício, construído segundo a tradição local em pedra granítica, é contornado por um espaço ajardinado agradável à vista. No relvado destaca-se uma piscina de água azul onde várias pessoas desfrutam momentos de lazer. O Carvalhal é uma aldeia de fácil acesso, constituída por grandes moradias de construção relativamente recente que se alinham ao longo da estrada e que pertence ao concelho de Castro Daire. A nossa curta estadia nesta aldeia teve por objectivo usufruir deste magnifico espaço termal e descobrir a região onde se insere, da qual partimos mais enriquecidos.

Desfrute: De uma equipa dedicada

Situadas no concelho de Castro Daire, com uma história que começou há já 200 anos, as Termas do Carvalhal têm uma personalidade muito própria. Destacam-se pela satisfação demonstrada por quem aqui trabalha e pela constante procura de aperfeiçoamento técnico, de forma a garantir um desempenho de qualidade. Para esta equipa é gratificante ver recuperadas de doenças de pele, do aparelho respiratório, digestivo, reumáticas e músculo-esqueléticas, as pessoas que aqui recorrem diariamente. Por essa razão, o seu horário de trabalho é bastante alargado, garantindo uma maior disponibilidade. É um facto que os benefícios dos tratamentos com a água são indiscutíveis, mas estes estão sempre associados a quem os presta, sendo esta receptividade sentida por quem frequenta este espaço.

Mas não são os problemas de saúde que me levam às Termas do Carvalhal. Pelo contrário, procuro perceber como é que este espaço termal pode contribuir para preservar a saúde e o bem-estar daqueles a quem a fadiga, o stress e o esgotamento pode trazer consequências nefastas, nem sempre evidentes a curto prazo. Nestas termas desfrutei da hidromassagem computadorizada com cromoterapia e, depois daqueles minutos na água, a pele sente-se macia ficando uma sensação realmente agradável. A massagem com pedras quentes foi verdadeiramente relaxante e uma agradável surpresa. Ambas foram experiências inesquecíveis, absolutamente relaxantes, que recomendo vivamente. Até porque esta região tem muito para lhe oferecer, pelo que pode tirar partido da sua visita às termas. Partilho algumas das minhas descobertas.

Descubra: O desafio de viver na Serra de Montemuro

Na minha passeata pela região de Castro Daire tive oportunidade de fazer algumas descobertas que me agradaram particularmente. Começo pelas “Capuchinhas”, uma cooperativa de mulheres na aldeia de Campo Benfeito, na Serra de Montemuro. Dedicam-se à produção de peças de vestuário em linho, lã e burel segundo métodos tradicionais, mas com um design moderno e uma grande qualidade. Tecem o linho nos teares manuais, tingem as lãs com os líquenes dos carvalhos, as folhas da nogueira ou com urtigas, cortam, cozem… O que as distingue é seu espírito de iniciativa e a aposta na qualidade. Nos anos 80, uma época em que as aldeias eram abandonadas por quem procurava uma vida melhor além-fronteiras, estas mulheres optaram por ficar e procuraram uma profissão. Uma formação de corte e costura e os apoios ao desenvolvimento vindos da Comunidade Europeia deram-lhes o que lhes faltava. Trabalham na escola primária onde aprenderam a ler e a escrever e impediram que Campo Benfeito fosse mais uma aldeia deserta. No interior deste espaço sente-se uma energia francamente positiva, pelo que adorámos conhecer as “Capuchinhas”. Já agora, a capucha é a designação dada à capa de burel usada pelos pastores para se protegerem do frio, da chuva e também da neve.

Não muito longe visitámos a Ervital, na aldeia de Mezio. Trata-se de uma produção de ervas aromáticas e medicinais que segue os padrões do método de produção biológica em plena Serra de Montemuro, a mais de 1000 m de altitude. Comercializam mais de cem infusões e condimentos com a sua própria marca, em diferentes tipos de embalagens. Um projecto que tem vindo a crescer gradualmente desde 1997. Numa região de solos considerados pobres, desenvolveram uma actividade agrícola que criou emprego tendo, em 2017, sido galardoada com o Prémio Nacional Agricultura na Categoria Bio. Aqui descobrimos o mundo fascinante das plantas, ficámos conscientes do quanto as desconhecemos assim como os seus benefícios. Lamentámos que o dia não fosse maior, pois teríamos aprendido muito mais.

Ainda no Mezio descobrimos a Associação Etnográfica e Social de Montemuro, cujo objectivo consiste em dar destaque ao património cultural da região. Visitámos o seu Museu (Museu Etnográfico Dolores de Jesus), que expõe as tradições locais o que, tendo em conta que estamos num espaço tão pouco povoado, acabou por nos impressionar. Para além disso, possuem também uma cooperativa de artesãos, com o seu próprio local de venda, um restaurante no qual almoçámos muito bem, um grupo de danças e cantares e ainda prestam apoio domiciliário a quem dele necessita. Aqui ficam três exemplos que provam que viver na aldeia pode ser sinónimo de desafio e de criação de projectos dignos de valor.

Já em Castro Daire dei comigo a fazer pose junto ao marco que anuncia os 75 anos da “Nacional 2”. Esta estrada, que percorre praticamente todo o país de Norte a Sul, constitui hoje uma importante temática turística e está nos meus planos, um dia, percorrê-la. Na proximidade deste marco localiza-se a pastelaria “Forno da Serra”. Dificilmente resisto a boas pastelarias! Acabei por entrar e perceber que aqui se faz um bolo a que chamam “podre”. Contudo, garanto-vos que de podre só tem o nome… e que o Bolo Podre de Maçã, com o qual esta pastelaria ganhou o Prémio ACIP Inovação em 2019, é uma verdadeira delícia.

Explore: A Rota dos Moinhos e outros lugares da Serra

O Município de Castro Daire projectou um conjunto de nove rotas pedestres que permitem conhecer bem a região. Estão explicados no “Centro de Interpretação e Informação de Montemuro e Paiva”, o qual aconselho que visite antes de se pôr a andar. Uma curiosidade importante é que o Município não só criou os percursos como os dinamiza. Desta forma, a nossa caminhada foi partilhada com cerca de trinta outros amantes do pedestrianismo, o que a tornou deveras mais interessante e agradável.

O percurso, com cerca de seis quilómetros, teve início na Associação da aldeia de Eiriz. É designado por “PR1- Trilho dos Moinhos” e faz-se por trilhos progredindo ao longo da Serra entre paisagens de grande beleza. É caracterizado pela existência de algumas ribeiras e cascatas, das quais são exemplo a Cascata da Tojosa na Ribeira de Eiriz e, mais à frente, o Poço Negro. Este lugar é constituído por um conjunto de várias cascatas onde vale a pena parar, respirar e admirar toda a natureza que as envolve. Pelo meio ficam os Moinhos da Quinta, onde aconselho também a parar uns momentos para os admirar. O grande desafio do dia foi feito já no final do percurso, uma subida muito longa e íngreme onde era preciso ir trepando pedra a pedra com a ajuda também das mãos. De vez em quanto era necessário parar para ganhar fôlego, mas o facto de o fazermos em grupo tornou tudo mais divertido. São os grandes desafios que nos ficam na memória e esta subida tornou-se inesquecível.

Antes de regressar não deixe de passar pelas Portas de Montemuro, a 1220 metros de altitude, onde se encontra a capela de Senhor do Amparo. Admire a paisagem onde vai encontrar algumas pedras graníticas com formas curiosas provocadas pela erosão. Várias delas estão classificadas como Geossítios (como o Arouca Geopark). Suba um pouco mais à procura da muralha que deu o nome a esta serra. Trata-se de um sítio arqueológico decretado Imóvel de Interesse Publico em 1974, uma enorme cerca de pedra granítica com um perímetro superior a 1,50 km, já bastante destruída. Agora só tem de pesquisar qual a sua origem e voltar um outro dia para continuar a explorar a região de Castro Daire.

Mais informações sobre as Termas do Carvalhal aqui.

Veja por onde já andou a Elisabete Jacinto:

Caldas de Manteigas, Geomorfologia e termalismo

Termas de Águas, bem-estar na natureza

Termas do Bicanho, saúde, lazer, natureza e património

Termas de Almeida-Fonte Santa, uma preciosidade na montanha

Sangemil, umas termas com personalidade

Termas de Alcafache, um lugar de lazer e repouso

S. Pedro do Sul, umas Termas com História

Um dia nas Termas do Vale da Mó

Termas da Curia, muito mais do que um espaço termal

Termas de Luso, uma fonte de bem-estar

Termas de Unhais da Serra, uma experiência que deve ser vivida

Termas do Cró, um paraíso na natureza

Uns dias nas Termas de Monfortinho

www.termascentro.pt

1 Shares
Também pode gostar

Ver e fazerLuso: roteiro pela vila termal (e arredores)

Os territórios onde estão implantadas as estâncias termais da rede Termas Centro são verdadeiramente deslumbrantes. Um período passado nas Termas é, por isso, recompensador de diversas formas. Além de contribuírem para a regeneração do corpo, sendo eficazes no tratamento de…

Estâncias termaisTermas do Carvalhal, uma história com 200 anos

As Termas do Carvalhal, no belíssimo território de Castro Daire, é uma das unidades termais mais importantes da região Centro. Mas nem sempre o foram. Ao contrário de outras, as propriedades curativas das águas são uma descoberta relativamente recente. “Águas…

Estâncias termaisCuria, a água que curou o engenheiro francês

A história das Termas da Curia começa como a de muitas outras estâncias termais. Começa por uma nascente, que jorrava água borbulhante diretamente da terra, e pela sabedoria popular, que descobriu, empiricamente, as suas propriedades curativas. Nesta história também tem…