Termas do Bicanho, saúde, lazer, natureza e património (por Elisabete Jacinto)

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A Elisabete Jacinto continua à descoberta das Termas Centro. Hoje, a piloto portuguesa conta-nos o que viu e experimentou nas surpreendentes Termas de Bicanho.

A actividade termal tem grande tradição em Portugal, tendo algumas estâncias constituído verdadeiros pólos dinamizadores das regiões em que se inserem. Por essa razão, esperamos sempre encontrar, em cada uma delas, a marca de um passado remoto, em que a população, depois da época das colheitas, se dirigia às termas para recuperar o corpo da fadiga e das mazelas contraídas na lavoura. É por isso que ficamos fortemente surpreendidos quando chegamos ao Bicanho e encontramos um hotel de qualidade, de construção muito recente, isolado no meio da encosta e debruçado sobre os arrozais que o Rio Pranto alimenta com a sua água. Mas não nos deixemos enganar pela modernidade do edifício. Esta é, de facto, uma zona termal com mais de um século de História. Um olhar mais atento permite-nos descobrir as ruínas do complexo termal original, na base da encosta, às quais já ninguém presta atenção. Estamos na freguesia de Samuel, concelho de Soure e, curiosamente, existem outras nascentes de água termal na proximidade. 

Desfrute: De um espaço termal moderno

As Termas do Bicanho, discretas mas dinâmicas, estão integradas num hotel de quatro estrelas concluído em 2015, que proporciona uma visão moderna da utilização da água termal. A organização deste espaço faz-nos esquecer que aqui se tratam doenças do aparelho respiratório, reumáticas e músculo-esqueléticas. Ou seja, a utilização das propriedades desta água tem aqui também finalidades lúdicas, mas com reflexos na saúde e no bem-estar. Assim, uma piscina moderna, dinâmica, com hidromassagem, jacuzzi, camas de água, bancos de aerobanho, cascatas, e corredor de marcha com vista para os arrozais é uma das atracções deste balneário termal. Trata-se de um divertido espaço de lazer que faz as delícias de qualquer um nos dias de calor, com o benefício da água mineral. Mas não aconselho a que fique apenas pela piscina. Ali mesmo possui uma gama muito variada de técnicas de tratamentos do corpo, tais como saunas, banho turco, banho Vichy, massagens tradicionais, entre outras, que estão muito acessíveis e são muito relaxantes. Para além de descansarmos e de nos divertirmos em família, poderemos também dispensar alguns minutos a nós próprios, saindo das Termas do Bicanho revigorados, plenos de energia e com a saúde reforçada.

Explore: O Planalto do Sicó e os campos de arroz

É sempre interessante quando, ao caminhar, podemos associar a descoberta de algo mais, quer se trate de património natural, cultural ou mesmo religioso. Caminhamos para, simultaneamente, nos cansarmos e relaxarmos, mas, se para além disso, tivermos a oportunidade de aprender algo mais, tanto melhor! Foi o que aconteceu durante a nossa estadia nas Termas do Bicanho.

Daqui partimos para percorrer a “Rota das Dolinas e Planalto do Sicó” (PR 8 – SRE PBL ANS) só que, desta vez, imagine-se, não fomos a pé, mas sim de 4×4. Tínhamos à nossa espera o Clube Tracção Total Aventuras Soure que, desta forma, nos deu a possibilidade de percorrer, em tão pouco tempo, os cerca de 24 quilómetros daquela rota circular e constituiu uma agradável surpresa. A Serra do Sicó, sendo dominada pela rocha calcária, está sujeita a um processo de erosão que resulta da dissolução do calcário pela água (processo cársico), e que leva à elaboração de formas e paisagens muito particulares. Algumas delas são hoje consideradas de elevado valor patrimonial. As “dolinas”, grandes depressões circulares bem visíveis em alguns lugares, são disso exemplo. Estava, por isso, muito curiosa e a Serra ali estava, linda, tal como esperava, com a sua vegetação natural rasteira, repleta de borboletas. Os seus muros de pedras amontoadas, que antes serviam para dividir as propriedades, hoje contribuem para o seu embelezamento, pois já não há vestígios da actividade agrícola. É que nas serras de rocha calcária a água superficial está praticamente ausente, infiltrando-se na rocha, perfurando-a e dando origem a cavidades e grutas. Se, por um lado a agricultura se torna difícil, por outro facilita a formação de cavidades bonitas de ver, das quais as Buracas do Camilo são exemplo. O passeio não terminou sem um lanchinho na Junta de Freguesia de Tapéus, que nos permitiu descobrir algumas iguarias locais, tais como o queijo rabaçal, o pão-de-ló, os suspiros e os biscoitos de azeite, que adorei.

Como o concelho de Soure é muito diversificado, no dia seguinte virámos as costas à Serra e dirigimo-nos aos arrozais, experiência que não queríamos perder. Percorremos a PR 1 –  Rota do Arroz, que tem início junto à ponte, em Vila Nova de Anços. Aqui a água está sempre presente. Seguimos ao longo do Rio Arunca e dos canais de irrigação, sempre entre paredes de frondosa vegetação formadas pelos salgueiros, freixos, choupos e amieiros. A caminhada, com apenas quatro quilómetros, foi curta, mas muito agradável.

Descubra: Soure e o seu papel na nossa História

Soure faz parte da minha história. Era um dos pontos de passagem da Ronda dos Castelos, um passeio de todo-o-terreno onde fiz a minha estreia nestas lides, em moto.

Contudo, esta vila faz parte da História de todos nós, pois teve um importante papel na construção da nossa nacionalidade. O seu castelo, do qual resta apenas uma pequena parte, integrou no passado a linha defensiva do Mondego. Ao contrário da maioria, este situa-se em terreno plano, aproveitando a confluência do Rio Anços e Arunca como protecção natural.

Em tempos idos, Soure marcava o limite do Condado Portucalense tendo sido, por essa razão, atribuído por D. Teresa em 1128 e confirmado no ano seguinte por D. Afonso Henriques, à Ordem do Templo, constituindo assim a primeira sede e o primeiro castelo Templário.

A importância desta vila não se fica por aqui, pelo que há muito mais para descobrir. A mim, surpreendeu-me igualmente o facto de a igreja matriz ser dedicada ao apóstolo S. Tiago. Esta foi mandada construir pelo Rei D. Manuel I (ainda Duque de Beja) no século XV e contém a primeira representação iconográfica da esfera armilar em Portugal. No seu interior, a presença da concha da vieira, símbolo dos “Caminhos de Santiago”, uma rota milenar seguida por milhares de peregrinos desde o início do século IX, em direcção a S. Tiago de Compostela, demonstra também a importância histórica de Soure nesta peregrinação.

Desta forma, uma simples visita às Termas do Bicanho pode reunir, simultaneamente, saúde, lazer, natureza e património.

Mais informações sobre as Termas do Bicanho aqui.

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www.termascentro.pt

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