Termas de Longroiva, referidas desde a pré-história (por Elisabete Jacinto)

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A piloto portuguesa Elisabete Jacinto continua o seu percurso pelas estâncias termais da rede Termas Centro. Este texto, escrito na primeira pessoa, é a sua experiência nas Termas de Longroiva.

A existência de uma estância termal em Longroiva permitiu-me conhecer esta povoação, situada no concelho de Mêda. Trata-se de uma pequena aldeia que desce a colina encimada por um castelo de arquitetura templária, o qual testemunha uma parte do seu passado. Diz-se que Longroiva tem origem Céltica, havendo vestígios de presença humana desde o megalitismo. Por aqui também estiveram os romanos e os árabes… Contudo, foi a sua nascente de água sulfurosa que nos trouxe a este lugar. Pensa-se que estas águas termais são conhecidas desde a pré-história, que foram utilizadas pelos romanos e pertenceram à Ordem dos Templários nos primeiros reinados de Portugal.

Tudo isto nos diz algo sobre a qualidade destas águas. Apesar de tudo, em pleno século XXI, este espaço termal, que foi reconstruído e modernizado, encontra-se fechado. Por essa razão não pudemos desfrutar do mesmo. Contudo, ficámos a conhecer Longroiva, Mêda e a aldeia histórica de Marialva. Valeu a pena.

Descubra: A Aldeia Histórica de Marialva

Marialva é uma relíquia da nossa história. Situa-se a poucos minutos de Longroiva e é de fácil acesso.

Visitá-la leva-nos a questionar, seriamente, a forma como viviam as pessoas em épocas passadas. Para isso basta começar a caminhar pelas ruas estreitas da “Vila”, designação dada ao povoamento que se estendeu fora das muralhas, para chegar à fortaleza. Subir às muralhas do castelo e olhar em redor é uma experiência única e inesquecível. Primeiro, porque não há um caminho definido para lá chegar. Há que galgar pedra a pedra, para ir subindo cautelosamente. De seguida, a escada que nos leva na vertical até ao topo é estreita e não tem qualquer protecção. Lá em cima, o espaço é reduzido e também não existe varandim, muro ou rebordo. Não é conveniente estar ali em dias de vento pois estamos completamente desprotegidos. Estamos alto, muito alto. À nossa volta a paisagem estende-se até muito longe, trezentos e sessenta graus em nosso redor. Conseguimos ver todos os detalhes da paisagem com nitidez. Neste sítio temos a mesma perspectiva que um drone na observação do que nos rodeia e a sensação de estarmos suspensos… Aqui não faço um gesto sem pensar bem primeiro. Sinto-me deslumbrada enquanto olho ao meu redor. É verdadeiramente impactante.

Quando o nosso olhar se solta da distância e temos a coragem de o dirigir para baixo, damos de caras com a “cidadela”, a aldeia que nasceu dentro das muralhas. É impressionante. Hoje não passa de um conjunto de ruínas, mas, mesmo assim, é possível adivinhar as ruas e as casas que já não existem. Destas, restam partes das paredes de pedras de granito, muito escurecidos pelo tempo. Contudo, ainda estão em muito bom estado o Pelourinho, a Casa da Câmara, dos Magistrados e a Cisterna. Por sua vez, a igreja de Santiago e a capela do Senhor dos Paços foram impecavelmente recuperadas. A espessa muralha com as suas quatro portas, a do Anjo da Guarda, a de Santa Maria, a do Monte e a do Postigo, mantém a sua forma oval em perfeito estado de conservação exibindo, com orgulho, as suas torres defensivas. Para além da Torre de Menagem existem outras três, a Torre do Monte, a do Relógio e a dos Namorados. 

Povoada pelos aravos, povo lusitano, Marialva foi conquistada pelos romanos, habitada por árabes e conquistada por D. Fernando em 1063. Uma história longa, interessante de se conhecer. Muito mais poderia ser dito sobre Marialva, mas, o que mais me apraz dizer, é que é um lugar que vale a pena visitar.

Desfrute: De um hotel de charme no antigo edifício termal

Por estarem fechadas não nos foi possível desfrutar das termas, mas apreciámos bastante a nossa estadia no Longroiva Hotel Rural. Este seria o hotel associado às mesmas oferecendo, por isso, os vários serviços termais, mas que agora está impedido de o fazer. Apesar disso, vale a pena vir a Longroiva e passar aqui algumas noites, num ambiente que inspira tranquilidade e convida a uma pausa retemperadora. Este é um hotel de charme que resultou da recuperação do antigo edifício termal, tendo sido adaptando com uma arquitectura contemporânea. Associa assim o encanto da antiguidade de um edifício de espessas paredes de granito à modernidade com originalidade e encanto. Gostámos de o ter conhecido e recomendamos.

Explore:  Caminhos que brilham ao Sol

Visitada a aldeia de Marialva, Mêda e depois de um passeio por Longroiva, onde fizemos questão de subir a escada, já ferrugenta, para entrar na torre, decidimos fazer o percurso pedestre que parte das termas. Trata-se de um percurso circular com quase sete quilómetros, que se faz facilmente e que é muito agradável. Leva-nos a conhecer os arredores, por trilhos e pequenas veredas por entre a vegetação que cresce espontânea, terrenos cultivados, vinhas e oliveiras. Seguimos ao longo das encostas, ao longo dos vales, acompanhando com o olhar os cursos de água e as suas amplas paisagens. Vamos cumprimentando e estabelecendo conversa com os poucos agricultores com quem nos cruzamos e, a certa altura, começamos a ver ao longe a torre do castelo de Longroiva.

Mêda
Longroiva
Longroiva
Longroiva
Longroiva

As várias perspectivas que a caminhada vai permitindo dão-nos a possibilidade de obter uma grande variedade de fotos adequadas aos postais ilustrados que se usava outrora. Vou fotografando, mas, ao mesmo tempo, a minha atenção dirige-se ao chão que vou pisando pois está cheio de pequenos pontos prateados, muito brilhantes. O seu brilho vai variando à medida que me desloco sobre eles e não consigo deixar de os observar. Achei tal facto fascinante, apesar de ter percebido que estes pontos brilhantes resultam da mica arrancada à rocha granítica pela erosão. A mica é um dos minerais que constituiu o granito. De granito é também a pequena e estreita ponte romana construída sobre a ribeira dos Piscos. Tão estreita que não permite a circulação automóvel, pelo que a estrada de alcatrão foi construída mesmo ao lado. Não deixa de ser curioso.

E assim chegámos de novo a Longroiva, tentando adivinhar o que ficou para conhecer.

Mais informações sobre as Termas de Longroiva aqui.

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www.termascentro.pt

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