S. Pedro do Sul, umas Termas com História (por Elisabete Jacinto)

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A piloto portuguesa Elisabete Jacinto continua o seu percurso pelas estâncias termais da rede Termas Centro. Desta vez, conta-nos a sua experiência nas Termas de S. Pedro do Sul.

A chegada às Termas de S. Pedro do Sul é particularmente agradável. O verde das plantas e o azul do céu marcam a paisagem durante a nossa descida até ao fundo do vale. Aqui, um pequeno aglomerado de casas brancas com telhados vermelhos divide-se entre as duas margens do rio Vouga, unidas por pontes e passagens. Neste local, o rio ganha uma importância tal que se decidiu enfeitá-lo com monumentos de água, os quais fazem parte do repertório fotográfico de todos os que por aqui passam. É à sua beira que brotam as águas sulfúreas, a 67,8ºC, consideradas “milagrosas” no tratamento de doenças respiratórias, reumáticas e músculo-esqueléticas, que desde há séculos vêm atraindo visitantes.

Estas são as mais antigas e conhecidas termas portuguesas. Contudo, não viemos para tratar qualquer tipo de doença, mas sim em busca de um reforço da nossa saúde. Posso agora afirmar, com certeza, que aqui se ganham dias de vida.

Desfrute: de Termas de Reis e Rainhas

A pequena povoação das Termas de S. Pedro do Sul é especialmente simpática. Enquanto caminhamos por aquelas ruas sentimo-nos em comunhão com a natureza, talvez porque o rio e as frondosas árvores que o contornam estejam sempre presentes, ou porque a encosta da Serra da Arada, que se estende acima do casario com um verde muito intenso, está sempre no nosso horizonte.

Nesta povoação atrai-nos particularmente um monumento histórico, o antigo edifício das Termas, cuja origem remonta à época romana, século I da era cristã. Trata-se do Balneum Romano, cuja existência prova o quanto antigo é o reconhecimento destas águas termais. Vale a pena visitá-lo e aprender um pouco de História.

Este edifício marca o início do usufruto destas águas termais, que foram reconhecidas por importantes figuras portuguesas. Há registos de que, em 1169, o primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, recuperou aqui de uma fractura na perna feita na batalha de Badajoz tendo, por isso, aqui vivido durante alguns meses. Mais tarde, no princípio do séc. XVI, foi D. Manuel I que aqui mandou construir o Hospital Real das Caldas de Lafões. Em 1894, é a Rainha D. Amélia que aqui vem pela primeira vez, voltando nos três anos seguintes. Assim, o que era antes designado por Caldas de Lafões, passou em 1895 a designar-se Caldas da Rainha D. Amélia e, actualmente, são as conhecidas Termas de S. Pedro do Sul.

Hoje, esta pequena povoação, cujo dinamismo gira à volta das Termas, contém, para além do edifício histórico de origem romana, dois outros balneários termais destinados à utilização das águas. Um deles é o moderno Balneário Termal D. Afonso Henriques, dedicado ao termalismo clássico onde, depois de uma consulta médica, lhe são aconselhados os tratamentos mais adequados, que se recomenda que tenham uma duração de 14 a 21 dias. O outro é o balneário termal Rainha D. Amélia, dedicado às técnicas de bem-estar, que oferece programas com uma duração que pode ir até três dias. Estas recorrem a uma linha de produtos de dermo-cosmética produzidos com base nesta água termal, dos quais vale a pena usufruir.

Estas técnicas são excelentes, muito relaxantes, mas não ocupam todo o dia. Por essa razão, decidimos partir a pé à descoberta da região. As Termas propõem uma gama muito variada de actividades de lazer de carácter desportivo, lúdico e cultural. Para os menos experientes em caminhadas, disponibiliza também um guia que os apoiará.

Explore: as tranquilizantes rotas pedestres

Gostamos de caminhar, até porque se trata da melhor forma de conhecer uma região. Contudo, o nível de prazer conseguido em cada caminhada depende, naturalmente, das características da envolvente natural. Nas proximidades de S. Pedro do Sul existe uma grande variedade de rotas pedestres. Duas delas são particularmente interessantes para quem vem decidido a abandonar o carro por uns dias. Trata-se da PR 11 -Rota do Castro do Banho (15,8 km) e a PR 12 – Rota Trilho do Vouga (6,3 km), pois ambas são circulares, com partida e chegada às Termas.

Contudo, optámos por percorrer a PR 2 – Rota das Bétulas, na Serra da Arada, o que se revelou uma excelente opção. Iniciámos a caminhada no Retiro da Fraguinha, um bucólico parque de campismo entre as serras da Freita e da Arada, não sem antes irmos conhecer uma turfeira que se encontra na proximidade. Cresce num espaço absolutamente verde, à beira de um pequeno curso de água onde as Bétulas marcam uma presença determinante. As turfeiras são ecossistemas do tempo dos glaciares e que estão em vias de extinção, confinadas apenas a pequenos refúgios no alto das montanhas. Este desvio constituiu uma pequena amostra do que nos esperava, um percurso absolutamente maravilhoso.

A Lagoa da Fraguinha deu-nos as boas-vindas numa ampla paisagem de montanha, embora já sem o colorido da Primavera, e seguimos ao longo da ribeira de Paivô. O som da água da ribeira acompanhou os nossos passos e fomos saltando de um lado para o outro de uma antiga levada de pedra que ocupava quase todo o trilho. Esta servia para levar água para campos de cultura que hoje já não existem. Aqui o horizonte era largo e podíamos admirar a serra coberta por uma vegetação rasteira.

Uns quilómetros mais à frente, a paisagem muda e entramos na floresta. Temos a sensação de estar num conto de fadas e, por momentos, sonhamos com a possibilidade de nos cruzarmos com uma. É que o ambiente é absolutamente idílico. As árvores, com os seus troncos cobertos de musgo e as suas copas frondosas, escondem o céu. Inúmeros fetos crescem entre as pedras graníticas, sobre as quais temos de ir trepando com cuidado pois a água está sempre presente e o piso, às vezes, é escorregadio. Pequenos regatos, aqui e ali, vão soando e enchendo espaço com a sua musicalidade calmante. Os nossos pés seguem molhados quase desde o início do percurso.

Chegados à aldeia, somos marcados pela imagem do pastor que conduz as vacas sentado ao volante da sua carrinha táxi, da mulher que transporta um fardo de erva à cabeça, o qual lhe desce quase até à cintura e da conversa expedita da D. Luísa que, com os seus noventa anos de idade, nos impressiona com as histórias da sua vida pois, aos sete anos, trabalhava já nas minas de volfrâmio, transportando o minério durante a noite, de candeia na mão.

Fomos almoçar à aldeia da Pena, uma aldeia histórica de xisto, situada na Serra de S. Macário onde, actualmente, apenas residem três famílias e existem três actividades económicas: dois restaurantes (nós comemos na Adega Típica da Pena) e uma pequena loja de artesanato, onde o Sr. António nos vai contando as várias lendas que nos ajudam a compreender a região.

Momentos inesquecíveis!

Descubra:  S. Pedro do Sul e as Montanhas Mágicas

Estamos na zona das Montanhas Mágicas, uma área certificada como destino turístico sustentável (Rede Natura 2000 e Arouca Geopark Mundial da Unesco) que inclui as Serras de Montemuro, da Freita e da Arada e os rios Paiva e Vouga. É muito fácil perceber a atribuição desta designação quando percorremos aquelas cumeadas, com os olhos postos nas formas que a natureza vai talhando na montanha.

Sentimos um pouco dessa magia quando nos sentamos nos vários baloiços panorâmicos instalados na região e nos lançamos suavemente para a frente em direcção à paisagem, sentindo o ar puro que nos rodeia. Interrogamo-nos sobre essa magia quando chegamos às piscinas naturais talhadas na pedra pelos rios e somos confrontados com a beleza da natureza que as envolve. Aqui chamam-lhe poços.

Conhecemos o Poço Negro, talhado pelo rio Teixeira, e o Poço Azul, pela Ribeira da Landeira que desagua no Vouga. É impossível dar um mergulho nestas águas transparentes sem nos interrogarmos sobre a magia que lhes deu origem… ou que nos deu origem. É nestes espaços que sentimos o quanto é importante preservar e respeitar a natureza para a qual nada contribuímos. Preservar a natureza significa também preservar a nossa saúde, o que considero ser nossa obrigação fazê-lo. 

Descubra também a cidade de S. Pedro do Sul, a pouco mais de 4km das Termas. Entre os vários pontos de interesse destaco o seu parque cheio de nogueiras situado à beira do Rio Sul onde, segundo a lenda, foi encontrada intacta a imagem de S. Pedro depois de ter sido levada por uma enxurrada.

Conscientes de que muito ficou por conhecer, regressámos ao Grande Hotel das Termas para uma última noite.

Mais informações sobre as Termas de S. Pedro do Sul aqui.

Veja por onde já andou a Elisabete Jacinto:

Um dia nas Termas do Vale da Mó

Termas da Curia, muito mais do que um espaço termal

Termas de Luso, uma fonte de bem-estar

Termas de Unhais da Serra, uma experiência que deve ser vivida

Termas do Cró, um paraíso na natureza

Uns dias nas Termas de Monfortinho

www.termascentro.pt

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