Caldas de Manteigas, Geomorfologia e termalismo (por Elisabete Jacinto)

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A piloto portuguesa Elisabete Jacinto está a realizar uma rota pelas estâncias termais da rede Termas Centro. Neste texto, escrito na primeira pessoa, conta-nos o que viu e experimentou nas Termas de Manteigas.

As Termas de Manteigas, com mais de quatro séculos de existência, situam-se nos arredores da povoação, a cerca de 3 quilómetros. As suas nascentes têm origem em águas que circulam em profundidade e que ascendem à superfície através da falha tectónica que esteve na origem do vale do Rio Zêzere. Estas águas sulfurosas, que brotam da terra a 48º C, são utilizadas medicinalmente para tratamento de doenças do aparelho respiratório, reumáticas e músculo-esqueléticas. A sua pureza, riqueza mineral e temperatura tornam-na excelente quando consideramos a necessidade de cuidarmos da nossa saúde. A nossa esperança de vida é cada vez maior e viver muitos anos deve ser sinónimo de capacidade física permanente. Torna-se, por isso, imperioso cuidarmos do nosso corpo e da nossa mente. Diria que este é o lugar perfeito para o conseguir pois, para além das termas, aqui desfruta de todo um contexto natural, que o fará também refletir sobre a história da Terra.

Explore: O Vale Glaciar do Zêzere

As termas de Manteigas têm uma localização particular, já que se situam no Vale Glaciar do Zêzere. Estudei-o nos livros de Geomorfologia, na Faculdade. Em 2010, a propósito da sua candidatura ao programa da RTP “Sete Maravilhas Naturais de Portugal”, estabeleci com esta forma de relevo uma proximidade emocional, já que fui a madrinha desta candidatura. Actualmente, a minha passagem pelas Termas de Manteigas permitiu-me um conhecimento mais profundo da realidade que caracteriza o Vale Glaciar do Zêzere, pois não há melhor forma de conhecer um espaço do que percorrê-lo a pé. Partimos do ponto mais alto, aos 1993 metros, onde foi construído o que habitualmente se designa por “Torre”, ou seja, uma construção que o prolonga até aos 2000 m de altitude. Foi aí que iniciámos a nossa descida, galgando com atenção cada pedra, já que o caminho ia ser longo e tortuoso. Íamos percorrer a PR6-Rota do Glaciar, um percurso com 17 km e que é uma das dezasseis rotas pedestres desenhadas pelo Município de Manteigas, que perfazem um total de duzentos quilómetros. Estas várias rotas tocam-se em vários pontos no terreno, pelo que pode ser o próprio caminheiro a conceber o seu trajecto. Mas atenção, é importante munir-se da aplicação “Manteigas-Trilhos Verdes”, concebida para telemóvel, que lhe permite estar sempre no caminho certo, já que algumas marcações podem não estar bem visíveis.

Voltando ao nosso percurso… em altitude as árvores estão ausentes. O chão está coberto por uma vegetação rasteira, onde se destaca o cervum, uma herbácea que serve de alimento ao gado bovino e caprino. Não é por acaso que os grandes rebanhos são, e sempre foram, um elemento importante nesta região. As “cortes”, ou abrigos dos pastores, são ainda um elemento importante desta paisagem embora já não sejam utilizados da mesma maneira. Anteriormente, no início do inverno, antevendo a queda da neve, os animais que pastoreavam no vale da Primavera ao Outono desciam em busca de alimento em lugares mais quentes. Consta que, até ao início do século vinte, chegavam a reunir-se mais de mil cabeças de gado, conduzidas por cerca de 20 pastores que, a um ritmo de 35 quilómetros diários, atravessavam o Tejo e chegavam a Santiago do Escoural, no Alentejo. Impressionante, diria eu, se pensarmos em tudo o que isto implica. A última grande transumância foi em 1910, pois hoje os rebanhos são bem mais pequenos e vão ficando por perto.

Caminhar requer a nossa atenção, pelo que somos obrigados a parar sempre que queremos admirar a paisagem, as “mariolas” (construídas por diversão por quem não sabe o que realmente são e para que servem) ou as rochas comidas pela erosão que sugerem coisas curiosas… ou ainda as marcas deixadas no terreno pela presença do glaciar.

Sim, é importante dizer que este vale, onde nasce e corre hoje o Rio Zêzere, é um vale que foi talhado por um glaciar, numa época em que a temperatura era bem mais baixa e o gelo e a neve cobriam toda a serra. A existência de uma falha geológica facilitou o encaixe do gelo que, deslocando-se ao longo dela, pouco a pouco foi arrancando e arrastando pedras, escavando a rocha, dando-lhe aquela forma bem arredondada onde o Zêzere, hoje, se entretém a construir o seu próprio leito com a sua água gelada. Anos mais tarde, a temperatura subiu e o gelo derreteu. Os grandes blocos rochosos arrastados pela massa de gelo foram ficando depositados aqui e ali, chamamos-lhe “Blocos Erráticos”. As rochas mais pequenas foram ficando amontoadas, são as “Moreias”… e tudo isto, e muito mais, está visível aos olhos do caminheiro mais atento e informado. Uma verdadeira aula de Geografia! Manteigas possui um centro de interpretação do Vale Glaciar do Zêzere, mas é escasso nestas explicações que ajudam a compreender esta escultura da natureza, fundamental para a compreensão da história da Terra.

A meio da encosta seguimos por uma estreita e pedregosa vereda, a “Canada do Major”. Neste trajecto percebemos bem o efeito das derrocadas provocadas pelas chuvas intensas e dei comigo a reflectir sobre as alterações climáticas a que estamos sujeitos actualmente. Este vale é, ele próprio, um testemunho de várias alterações climáticas, o que é deveres interessante. Admiro a sua beleza e, olhando ao longe, vejo as vacas que aqui pastam livremente entre Março e Setembro. Apenas voltam aos estábulos nos meses de Inverno. Pergunto-me por quanto tempo continuaremos nós e as vacas a ter o privilégio de usufruir deste espaço absolutamente rico em termos naturais e culturais.

À medida que vamos descendo, a vegetação adensa-se e a floresta começa a marcar presença. Tivemos oportunidade de admirar o teixo, uma espécie que quase esteve em extinção, mas que, com os devidos cuidados, voltou a proliferar. Pouco a pouco vamo-nos aproximando de Manteigas, que há muito começámos a avistar, pendurada na encosta onde o vale, bem encaixado, forma uma curva fechada. O Zêzere continua muito para lá do vale glaciar a quem deu o nome e nós dirigimo-nos às Caldas de Manteigas, que é como quem diz, às Termas.

Desfrute: Da Serra e da Água

As Termas de Manteigas são uma agradável surpresa. Estão associadas à unidade hoteleira da INATEL, que sofreu uma reestruturação recente, tornando-se num espaço moderno e agradável. Um corredor permitiu ligar os dois edifícios, pelo que agora se pode aceder às termas directamente pelo interior do hotel. O edifício das termas apenas foi parcialmente reformulado, mantendo uma arquitetura clássica. Os vários gabinetes, cheios de luz natural, são dotados de janelas que permitem que o nosso olhar suba pela encosta verdejante que nos separa da restante paisagem. O Zêzere corre mesmo ali, à porta do edifício, o que nos deixa a ilusão de que ele já nos pertence.

Uma ampla e bem iluminada piscina com hidromassagem faz as nossas delícias. Sabe bem estar ali! A água morna permite descontrair todos os músculos e, por momentos, centramo-nos na sensação de que nada mais há para fazer e que podemos ficar ali o tempo que quisermos. Que prazer! Sentimo-nos bem, até porque a hidromassagem computorizada e o excelente Banho Vichy já nos aliviaram da caminhada. Esta refrescou-nos a mente, as termas recompõem-nos o físico. Uma dualidade perfeita!

Descubra: O Burel, um tecido ancestral

O Burel é um tecido feito da lã retirada às ovelhas da raça Bordaleira, autóctones da Serra da Estrela. É produzido segundo uma técnica ancestral, demasiado elaborada para que eu a consiga explicar. Visitei, em Manteigas, as fábricas “Ecolã” e “Burel Factory” e percebi que a lã que é retirada às ovelhas dá voltas e mais voltas para chegar a um tecido 100% natural, flexível, versátil, resistente à abrasão, ao fogo, impermeável… que não cria borboto e que tem variadas aplicações. Tradicionalmente era utilizado para a produção das capas dos pastores, para os proteger do frio, da chuva e da neve, mas hoje são inúmeras as suas aplicações. Uma gama variada de texturas, padrões e cores, às quais se aplicam várias soluções com design, tornam este produto português 100% natural uma verdadeira preciosidade, muito apreciado no estrangeiro e desconhecido da maioria de nós.

Seria injusto referir-me ao burel e não ao Queijo da Serra, mas esse todos conhecem e apreciam. Está presente nas entradas de todos os restaurantes de Manteigas, onde se come francamente bem e se tem sempre uma magnifica vista para a Serra.

A nossa visita às Termas de Manteigas foi curta, mas de uma riqueza inquestionável.

Mais informações sobre as Termas de Manteigas aqui.

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www.termascentro.pt

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