Caldas da Rainha: as muitas histórias do hospital termal mais antigo do mundo

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Um hospital para servir o povo

Refira-se que os poderes curativos destas águas já eram conhecidos. Um regimento da altura do rei D. Sancho I, em 1223, autorizava o pedido da gafaria de Santarém, que pedia que os leprosos que fossem “em romaria” àquelas águas recebessem 12 dias de ração. Na altura, o que é hoje as Caldas da Rainha não seriam mais que pequenas barracas em volta de poças onde os leprosos se banhavam.

O hospital mandado erigir por D. Leonor recebeu o nome de Nossa Senhora do Pópulo (por se destinar a servir o povo) e terá começado a funcionar em 1487, ficando concluído meia dúzia de anos depois. Deste primeiro edifício, resta a Capela Real, hoje Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, desenhado por um dos arquitetos do Mosteiro da Batalha.

A administração do hospital foi entregue a provedores nomeados pela rainha, até que, em 1532, o rei D. João III ordenou a entrega da gestão do Hospital à Congregação de S. João Evangelista, conhecidos como Lóios, que o administraram até 1772.

Banhos de ceroulas e curas de 24 dias

O Lóio Mestre Padre Jorge de São Paulo escreveu em 1656 o “Livro da Fundação deste Hospital”, manuscrito de 1132 páginas, que está no Museu do Hospital e das Caldas. A obra descreve os principais acontecimentos do hospital. É por ela que conhecemos o processo de entrada dos doentes, a maioria dos quais eram pobres. Quando chegavam, eram examinados e diagnosticados pelo médico, sendo admitidos se a sua doença constasse da “Tabela” de doenças tratáveis pelas águas. De seguida, “o Provedor mandava-os confessar e comungar”. Depois, procedia-se à inscrição e receitavam-se “4 ou 5 xaropes”. Já na enfermaria, o enfermeiro dava-lhes umas ceroulas, uma camisa, um roupão, umas chinelas e uma carapuça. As mulheres recebiam tudo menos as ceroulas e a carapuça.

A Cura durava em média 24 dias, divididas em três fases: a “purgação”, em que o doente tomava os xaropes; os “banhos”, em conjuntos de três dias seguidos de um dia de descanso, até completar nove banhos; e um dia de “convalescença”, após o qual era observado pelo médico, que lhe dava alta ou receitava uma nova Cura. Quando ia para o banho, o doente levava chinelas, camisa, ceroulas e carapuças. Tomava o banho somente com as ceroulas, que deixava depois do banho tomado. O enfermeiro limpava-o com um lençol de serviço e vestia a camisa, o roupão e a carapuça, seguindo para a cama onde ficava “abafado duas ou três horas para suar”.

(o artigo continua na página seguinte)

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