Caldas da Felgueira: uma História com quase três séculos

0 Shares
0
0
0

As Caldas da Felgueira, no concelho de Nelas, são das mais bem documentadas do país e a sua história é rica em pormenores curiosos.

A referência mais antiga às águas termais da Felgueira remonta a 1758. Nas “Memórias Paroquiais”, encomendadas nesse ano pelo Marquês de Pombal às paróquias de todo o país, as de Nelas e Canas de Senhorim identificam que “no ribeiro chamado das Caldas, lemite do lugar de Val de Madeiros, sohe a huma ilharga do sito ribeiro ágoa quente e súlfurea, que bebida tem feito bem a algumas obstruçõens de estômago, mas som pouco uzadas as ditas ágoas”. Traduzindo, já aqui era conhecida uma nascente de água quente e sulfúrea, indicada para males de estômago. Esta seria utilizada por pastores: era um sítio onde passavam os rebanhos em transumância, desde a Serra da Estrela, e ali saravam as feridas das patas dos animais.

Se era boa para os animais, também o seria para os homens. No final do século XVIII, é registada a primeira utilização terapêutica: a cura de uma doença de pele do Pe. José Lourenço, com a água extraída de um poço neste lugar. Tão satisfeito ficou o padre com os resultados que mandou construir uma casa junto do poço.

Em 1810, Tavares conta os muitos elogios que as águas recebiam e acrescenta que “é de esperar que tenham todas as virtudes das águas sulfúreas e das salinas”. Nesse mesmo ano, outro padre, José Inácio de Oliveira, grande dinamizador da utilização destas águas, mandou construir um barracão dedicado aos banhos e, em 1818, a capela do Bom Sucesso. Então, já se contavam 50 habitantes e 13 casas de habitação permanente e começavam a chegar os primeiros visitantes à procura dos benefícios das águas.

Publicidade às Caldas da Felgueira

O “banho velho” que dava para quatro

A Câmara Municipal de Nelas passou, pouco depois, a leiloar todos os anos a exploração dos banhos, que contavam na altura com quatro tanques, para quatro pessoas cada. No entanto, apenas dois eram utilizados, por escassez de água. Conta Luís de Acciaiuoli, na sua obra de referência “Águas de Portugal, Minerais e de Mesa. História e bibliografia”, de 1944, que “havia um arrematante dos banhos, o qual dava à Câmara de Nelas uma certa anuidade, recebendo por cada banho 5, 10 ou 20 réis. Para satisfazer a si e a todos os banhistas, nunca despejava completamente o tanque. Ao sair um grupo de banhistas, abria o tanque, entrava dentro do quarto, mexia a água com uma vassoura, tapava sem demora e estava, no seu entender, preparado um banho novo e limpo para outro grupo de banhistas”. Outros tempos!

Este “banho velho” seria em breve substituído. Em 1867, já existia “um pequeno edifício para onde a água sulfurosa é conduzida por canais abertos e que tem uns pequenos quartos com banheiras”. Também em 1867, depois de feitas algumas análises, a Exposição Universal de Paris reconheceu e premiou as águas da Felgueira, sendo comprovado que, além das afeções da pele, as mesmas beneficiavam a cura de doenças musculares, do aparelho respiratório e do aparelho circulatório, justificando a crescente procura pelas mesmas.

Ainda assim, muito haveria a fazer. De tal forma que, em 1871, o jornal Gazeta da Beira criticou o estado de abandono da Felgueira por parte da Câmara de Nelas. O escritor Ramalho Ortigão, no seu livro “Banhos de Caldas e Águas Minerais”, de 1875, classificou a Felgueira como “um pequeno estabelecimento de banhos extremamente modestos […] que não oferece distrações”.

(o artigo continua na página seguinte)

0 Shares
Também pode gostar

Estâncias termaisCuria, a água que curou o engenheiro francês

A história das Termas da Curia começa como a de muitas outras estâncias termais. Começa por uma nascente, que jorrava água borbulhante diretamente da terra, e pela sabedoria popular, que descobriu, empiricamente, as suas propriedades curativas. Nesta história também tem…

Estâncias termaisTermas do Carvalhal, uma história com 200 anos

As Termas do Carvalhal, no belíssimo território de Castro Daire, é uma das unidades termais mais importantes da região Centro. Mas nem sempre o foram. Ao contrário de outras, as propriedades curativas das águas são uma descoberta relativamente recente. “Águas…