Caldas da Felgueira, tratamento termal e spa (por Elisabete Jacinto)

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A piloto portuguesa Elisabete Jacinto continua o seu percurso pelas estâncias termais da rede Termas Centro. Este texto, escrito na primeira pessoa, é a sua experiência nas Caldas da Felgueira.

Desde o início deste périplo pelas Termas do Centro que aguardava com alguma expectativa a minha visita às Caldas da Felgueira. Na realidade, eram as únicas termas que conhecia e não me eram indiferentes…

Localizadas na margem direita do Rio Mondego e referenciadas desde o século XIX, eram na época identificadas como Caldas de Vale de Madeiros. Estão enquadradas pela Serra da Estrela, do Buçaco e do Caramulo e integram o concelho de Nelas. A paisagem é assim dominada por superfícies inclinadas, resultantes de uma topografia ondulada, cobertas por uma vegetação renovada devido aos incêndios de 2017. A aldeia é hoje pouco movimentada, pelo que o ambiente inspira calma e repouso. Uma estadia nas Caldas da Felgueira pode significar muito mais do que o usufruto de uma estância termal com muitos anos de história. Para mim, constituiu um momento importante na minha vida e, poderei também dizê-lo, na minha carreira desportiva.

Explore: Partindo da estação de caminho-de-ferro

Chegámos a Nelas de comboio no dia 3 de Agosto, dia em que a inauguração da Linha Ferroviária da Beira Alta completava cento e trinta e nove anos. Numa altura em todos pretendemos dar o nosso contributo para um planeta mais saudável, a utilização do comboio como meio de transporte é sempre uma opção a considerar. Este foi, durante muito tempo, o transporte viável para que os aquistas se deslocassem às Caldas da Felgueira. Eram de tal forma numerosos que a estação, inicialmente conhecida por “Cannas de Senhorim”, passou a designar-se por “Canas-Felgueira” e foi mesmo decorada com um painel de azulejos alusivo ao espaço termal. Nós fomos até Nelas porque queríamos alargar o nosso conhecimento da região. Caldas da Felgueira já conhecíamos bem.

Desembarcar na estação de Nelas é como recuar no tempo, não só devido á sua arquitetura, mas também graças aos seus quatro painéis de azulejos, da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto. Estes foram recentemente recuperados e representam o Pastor, a Serrana, a Lagoa Comprida e a Vindima. Se a modernidade foi minimizando a presença das duas primeiras figuras, a vindima é, ainda hoje, uma realidade. Estamos na região de Dão-Lafões, onde a vinha tem, e sempre teve, uma presença determinante na paisagem. A diferença é que, actualmente, muitos dos pequenos produtores de vinha são também produtores e engarrafadores de vinho com marcas próprias. Actualmente, os vinhos de qualidade são uma característica de Portugal.

Na pequena vila de Santar, a que já fizemos referência a propósito dos seus jardins, nos quais se integra a videira de uma forma muito peculiar, nasceram sete marcas de vinho. Nós visitámos a Quinta do Sobral, as Fidalgas de Santar e também a Lusovini, em Nelas, e percebemos a importância da vitivinicultura. Trata-se de uma actividade que contribuiu, entre outros aspectos, para a fixação da população, para o enriquecimento e valorização do interior. Haverá, sem dúvida, outras actividades que o poderão valorizar, mas essas ainda não ganharam a tão necessária popularidade. Assim, a vinha e o vinho são uma boa temática se quiser explorar o sítio onde se integram as Caldas da Felgueira.

Descubra: Uma história pessoal

Na família do Jorge sempre houve o hábito de recorrer às termas, não só para tratamento de alguns problemas de saúde, mas também para prevenir outros. Como pessoas modernas, deixámos cair esta tradição, optando sempre pelo recurso aos medicamentos. Contudo, estes pareciam não resolver algumas perturbações respiratórias a que o Jorge estava sujeito todos os Invernos. Um dia, angustiado com a situação, lembrou-se de que as termas lhe poderiam, eventualmente, minimizar tal sintomatologia. No entanto, isso implicava uma estadia de vários dias numa estância termal o que, para mim, estava absolutamente fora de questão. De forma alguma me via encerrada, num sítio aparentemente sem interesse, quando tinha tantas coisas que considerava muito importantes e a que tinha de dar prioridade.

Os anos foram passando e, um dia, perante a sua insistência e cumprindo o meu papel de esposa dedicada, acedi. Decidimos, assim, passar os dias necessários ao seu tratamento nas Caldas da Felgueira, termas reconhecidas na recuperação de doenças do aparelho respiratório, reumáticas e músculo-esqueléticas. Nesse período de tempo, enquanto o Jorge passava uma boa parte do dia nos tratamentos e uma outra parte a recuperar dos mesmos, eu gozava as minhas férias tirando partido do SPA ali à minha disposição. Foi nesta altura que percebi, na prática, o significado do termo SPA, expressão associada a actividades de lazer saudáveis, em contacto com a natureza e relacionadas com a saúde e bem-estar. Criei, para mim própria, um programa diário no espaço termal. Experimentei, pela primeira vez, as várias técnicas de relaxamento pela água, as quais ia associando a outras mais tradicionais, tais como massagens de diferentes tipos, tratamentos de rosto etc. Foram momentos lúdicos e uma descoberta verdadeiramente agradável.

Manter a forma física era algo a que tinha de dar prioridade. Por essa razão, despendia largos minutos a nadar na piscina ou a fazer outro tipo de exercício ali mesmo, à sua beira. Costumava também calçar as botas de caminhada e ali ia eu, por entre a vegetação, a explorar todo o tipo de trilhos e caminhos de terra, subindo e descendo encostas. Na altura, lutava por atingir objectivos desportivos demasiado ambiciosos. Estes implicavam situações extremamente difíceis e exigentes que me causam muito stresse. Por aquelas encostas, a caminhar sozinha, às vezes com o mato a chegar-me quase à cintura, encontrei a calma e a tranquilidade necessária para reorganizar as minhas ideias, sintonizar-me com os meus objectivos e as circunstâncias com as quais tinha de lidar. Estas férias constituíram um verdadeiro escape à pressão a que estava sujeita ao longo do ano e permitiram-me ganhar uma folga de energia para o que tinha de enfrentar a seguir. O Jorge passou o Inverno sem os habituais “problemas de nariz” e voltámos nos anos seguintes.

Desfrute: De excelentes percursos pedestres

As minhas caminhadas pelos arredores das termas permitiram-me fazer descobertas fabulosas que me incentivavam a ir cada vez mais longe na exploração daquele espaço. As ruínas de uma pequena casa de habitação foi uma das mais preciosas. Tratava-se do que se pensa ter sido a casa do padre José Lourenço que, em finais do séc. XVIII, se diz ter sido curado de uma doença de pele graças às águas sulfurosas que emergiam de um poço em Vale de Madeiros. Este é o primeiro registo da utilização terapêutica destas águas. Contente, mandou erigir uma casa junto ao poço e esta pode ter constituído o início desta estância termal. Das ruínas daquilo que se pensa ter sido a sua casa pouco resta, completamente exposto à degradação provocada pela passagem do tempo e parcialmente encoberta pela vegetação… sem qualquer destaque. Questionei-me se seria mesmo esta a casa do padre mas, mesmo assim, ficou-me o prazer de pensar que tinha conhecido a origem de umas termas que se revelaram de tão grande importância ao longo do tempo.

Uma boa parte dos caminhos percorridos por mim na altura estão agora integrados numa rota pedestre, designada por “PR3-Caldas da Felgueira”, marcada e cuidada pelo município de Nelas. Trata-se de uma rota circular com dez quilómetros de extensão, com partida e chegada às termas e que lhe permite passar em alguns pontos de interesse. Por exemplo, recordo o quanto me era agradável a descida até ao Rio Mondego entre uma densa vegetação e que incluía um pequeno desvio para a cascata da ribeira da Pantanha. Esta foi uma das regiões fustigadas pelos incêndios de 2017, pelo que a vegetação ainda só recuperou parte do seu esplendor, sendo agora dominada por espécies diferentes. São as mimosas que começam a ganhar destaque. Na proximidade fica uma ponte centenária, onde o rio se alarga formando uma magnifica piscina natural. As ruínas da Aldeia da Barca, que antes estavam praticamente encobertas pela vegetação, estando visíveis apenas duas ou três casas, podem agora ser completamente visitadas. Trata-se de uma aldeia situada à beira do leito de cheia do rio Mondego, que prosperou numa época em que, na ausência da referida ponte, era necessária uma barca para atravessar para a outra margem. Este percurso integra também um monumento megalítico, “Habitat e Orca do Folhadal”. Encontrei-o por acaso e considerei o achado de tal forma fantástico que obriguei o Jorge a ir vê-lo comigo no dia seguinte. Este faz parte de um conjunto de vários monumentos megalíticos devidamente identificados, situados nesta zona planáltica entre o Mondego e o Dão. Este é, pois, um percurso que deve ser feito, embora possa optar pela variante mais pequena, apenas com 4,2 km.

Para além deste circuito, o município de Nelas marcou também no terreno o “PR2- Percurso de Santar”, com 10,6 km, e o “PR1- Percurso dos Moinhos do Castelo”, do qual conhecemos apenas uma parte. Neste destaca-se o complexo dos Moinhos do Rio Castelo, dos quais quatro foram recuperados e estão em funcionamento. No passado serviam para a moagem do milho, hoje para nos explicar como esse processo era feito. Lá mais abaixo, foi colocada uma ponte sobre o rio para permitir que o percurso fosse circular. Foi também lá colocado um baloiço, que nos permite uma sensação de paz e tranquilidade sempre que nos baloiçamos sobre a água, entre paredes de vegetação de um verde fresco e intenso. Sentimo-nos especiais quando pensamos que estas pequenas coisas foram construídas para nosso prazer.

Um verdadeiro banho de natureza e de cultura. Isto e muito mais pode resultar de uma pequena estadia nas Caldas da Felgueira.

Mais informações sobre as Caldas da Felgueira aqui.

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www.termascentro.pt

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