A História e as lendas das águas de Longroiva já vêm do tempo dos romanos

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Há três coisas em Longroiva
que bem empregadas são:
são os sinos e as águas
e a Senhora do Torrão

(canto popular)

Vem de longe a fama das águas termais da Longroiva, expressa de forma eloquente neste canto popular. É até provável que a qualidade destas águas fosse já conhecida desde os tempos pré-históricos, embora não haja provas que o evidenciem.

Mais certo é que a nascente termal já seria bem conhecida dos romanos. Estes, durante centenas de anos ocuparam o castro de Longobriga, a poucos metros dali, onde hoje se ergue o castelo de Longroiva. Neste território realizaram prospeções para identificar jazigos mineiros e águas medicinais. A lenda da Estátua do Banho, em Longroiva, parece testemunhar o achado, neste local, de uma estatueta romana consagrada à deusa romana Salus, donde deriva a nossa palavra “saúde”.

Já na Idade Média, a vila de Longroiva e a sua nascente termal foram oferecidas à Ordem dos Templários. Reza outra lenda que a Rainha Santa Isabel, vinda de Aragão para casar com D. Dinis em Trancoso, corria o ano de 1282, terá passado na velha estrada romana, perto de Longroiva, banhando-se aqui.

Os banhos estavam então ligados ao culto à Senhora do Torrão, padroeira de Longroiva. A capela da Senhora do Torrão situa-se precisamente no local onde os Templários abriram o primeiro templo cristão, em torno do qual estabeleceram a sua necrópole.

O balneário medieval era muito simples e supõe-se que fosse idêntico ao romano. Compunha-se de dois tanques: um destinado aos homens e o outro às mulheres. Os tanques eram protegidos por uma espécie de cabanal, com cobertura de colmo. Mais obra menos obra, este sistema manteve-se idêntico até aos finais do séc. XIX, altura em que foi construído o primeiro edifício termal.

Referências à qualidade das águas

No séc. XVIII, surgem várias referências às águas da Longroiva.

A “Corografia Portuguesa”, de 1706, escreve que “na vila de Longroiva existem umas caldas que há poucos anos se descobriram de que se valem os doentes”. O “Aquilégio Medicinal”, de Fonseca Henriques (Primeiro Inventário das Águas Minerais Naturais de Portugal Continental, de 1726), descreve-as assim: “Na vila de Longroiva, comarca de Lamego, há umas Caldas de águas sulfurosas, de grande eficácia para os males frios de nervos, juntas, e mais partes nervosas, para a debilidade do estômago, e para acidentes do útero. Em algum tempo havia banhos, que se arruinaram, por falta de rendimento, com que foi finando o concurso que havia a eles; mas ainda hoje usam destas Caldas muitos enfermos com grande utilidade; porque a ruína dos banhos não tirou nem diminuiu à água as suas virtudes”.

Comprova-se, assim, que as águas eram famosas para tratar vários tipos de enfermidades e que o balneário estaria já então em ruínas, as quais não retiraram qualidade medicinal às águas.

Também o “Mappa de Portugal”, de João Bauptista de Castro (1762) elogia estas “caldas admiráveis para enfermidades frias e para convulsões, estupores, paralisia e vertigens”. A nascente é igualmente descrita nos “Quesitos aos Párocos”, levantamento feito por ordem do Marquês de Pombal: “Existem uns banhos de água sulfúrea tépida, que são excelentes para várias enfermidades, especialmente estupores: concorre muita gente, apesar de destruídas por causa das inundações”.

15 reis por banho

Resultado ou não de inundações, no início do século XIX o estado das termas era mau. Por isso, a Junta de Paróquia, que organizava a festa da Senhora do Torrão, empreendeu a tarefa de reconstruir o balneário. Para tal, solicitou às cortes constituintes, em 1822, autorização para construir um edifício de raiz. Os deputados da nação deram parecer positivo, a favor dos “juízes e mordomos da confraria do Santíssimo Sacramento da vila de Longroiva”, que se propunham a explorar “os banhos sulfúreos daquela vila”, que então eram utilizados pelos aquistas “num charco imundo, coberto de ramos, sem roupas algumas”. A Confraria deveria “fazer à sua custa dois banhos muito cómodos, um para homens, outro para mulheres“.

Note-se que o balneário era ainda o herdeiro da estrutura original, com dois tanques, masculino e feminino. Os banhistas sentavam-se no seu interior, em bancos de pedra.

Os deputados concederam à confraria o direito de cobrar 15 reis por banho, para amortização dos gastos da construção e pagamento ao banheiro encarregado da sua manutenção. Os banhos eram pagos apenas pelos aquistas que vinham de fora, pois eram tradicionalmente gratuitos para os longroivenses. Com o rendimento dos banhos que sobrava, a Junta de Paróquia fazia a festa à Senhora do Torrão, no dia 8 de setembro, o que coincidia com o final da segunda época balnear.

Em 1840, e face à crescente procura por parte dos aquistas, a Câmara Municipal ampliou as instalações. Mas foi só no final do século, no entanto, que surgiu um verdadeiro edifício termal. Este foi construído de 1878 a 1881, pela recém-criada autarquia da Meda, que comparticipou a obra com 18.000 reis.

A população de Longroiva trabalhou de forma gratuita na obra, fazendo trabalhos de desaterro e transportando pedra. O edifício que daí resultou tinha seis espaçosos quartos, com 8 tinas de pedra ou azulejo, buvete, salão de espera e passeios, “restando ainda muito espaço para aplicações terapêuticas”.

Uma nova dinâmica

No século XX, o município de Meda explora as águas de Longroiva, diretamente ou alugando a sua exploração a terceiros. Mas com o uso, o edifício foi-se degradando e ficando naturalmente desatualizado.

É já nos finais do século que se forma uma empresa municipal dedicada à exploração das águas termais. Esta empresa inicia novas captações de água, recupera os balneários e, em 2002, as Termas de Longroiva começaram a trabalhar numa fase experimental, surgindo o seu reconhecimento oficial pouco depois.

Na sequência do reconhecimento oficial, avançou-se para a construção de um novo edifício termal, que ficou concluído em 2011. Com ele, as Termas de Longroiva passaram a contar com um dos maiores e melhores balneários portugueses: um verdadeiro polo dinamizador do desenvolvimento da região.

O novo balneário dispõe de duas salas de tratamentos das vias respiratórias, uma piscina termal com 1,20 m de profundidade, 8 banheiras computorizadas e várias cabinas de duche, entre muitos outros equipamentos e de uma diversificada área de wellness.

NOTA: Para a execução deste texto, foi fundamental a consulta do “Novo Aquilégio”, um site que disponibiliza um extenso inventário de nascentes portuguesas com reportados usos terapêuticos, das termas mais famosas às fontes menos conhecidas. Em www.aguas.ics.ul.pt.

Mais informações sobre as Termas de Longroiva aqui.

www.termascentro.pt

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